onselectstart='return false'

Translate

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SUJEITO OCULTO


"Minha vida não é importante aqui" - Charles Manson


Artista: Marylin Manson



Eu não consigo resistir. Aquela ideia estava na minha cabeça há horas. Acho que Deus soube muito bem das consequências de nos criar. E soube muito bem da consequência de me criar. Essa nossa cidade fede. Esse nosso trânsito ensurdece minha alma. Vejo pobres fétidos caídos perto dos bueiros. Esse centro da cidade é a cara da insanidade. Pessoas com pressa, crianças chorando feito loucas, mulheres de saias curtas, mulheres de calça comprida. Mulheres. Mulheres. Preciso. Necessito. Eu quero. Vejo uma ali na frente.

Aquela mulher tem um cheiro diferente. Um cheiro libidinoso. Um cheiro que me cobiça uma abordagem instintiva. E a cidade ainda fede. Vou chegar nela, e sentir seu aroma e o gosto de pura libertinagem. Quero saber o que se passa entre as coxas, pés e peitos. Quero degusta-la a tal ponto, que eu possa saber o motivo da minha existência.

Tenho que me controlar! Meu Deus, tenho que me controlar! Mas essa cidade fede. Essas crianças choram. Esses fétidos estão pedindo esmola. E essas mulheres cheiram a puro prazer. Tenho ânsia por saciar esse prazer. Acho que vou fazer uma abordagem carismática. Não muito assustadora. Pedir informação de alguma rua? Essa cidade realmente é confusa. Morena, cabelo Chanel, um metro e...setenta e cinco mais ou menos. Busto memorável. Pela pressa, o andar desajeitado, olhar perdido, respiração ofegante e uma pasta na mão, digo que tem uns vinte e dois anos. Principalmente pelo busto e pelas suas pernas.

Se Deus teve um acerto, foi na criação da mulher. Não para ter a procriação e toda essa porcaria de constituição familiar. Ela foi criada para o mundo ter um pouco de prazer. Elas, que soam tão perfeitas, necessitam que sejam levadas ao extremo carnal para estarem acima de todo qualquer sofrimento. O meu prazer é a sua dor. A sua dor. Simplesmente. É. Meu. Prazer. Toda minha angústia. Toda minha raiva. Esse mundo de merda. Saciado pelo prazer da carne. Da carne daquela mulher. Daquela. Mulher.

Estou seguindo ela como uma presa fácil. Eu necessito daquele busto. Eu necessito de interpretar aquelas coxas e analisar suas sintaxes. Necessito entender sua boca e sua linguagem com um sujeito indeterminado. Quero que ela sinta prazer e eu continue sendo um sujeito oculto. Quero que ela veja que o amor é mesmo um verbo intransitivo, e não um acontecimento pré-selecionado por Deus como um transitivo direto. Quero saciar essa minha fome. Quero ter o cheiro dela na minha pele. Quero ter o seu perfume de carne por entre minhas mãos. Quero coleciona-la como um frasco raro. Como uma flor perto de toda merda e chorume de cidade. Enquanto muitos tentam a vida correndo atrás de sonhos, eu corro atrás de não me sufocar com essa merda de população. Mas ela vai estar na minha coleção. Eu vou trata-la como uma oração subordinada, e que ela seja minha presa substantiva sob meu olhar subjetivo.

Estou chegando perto. Estou mais perto. Estou quase lá. Derrubo uma pasta na qual ela está carregando. Peço desculpas. Ela diz que está tudo bem. Estamos agachados pegando documentos. Le*****. Vinte e dois anos. Acertei na idade. Ela está com pressa. Eu estou com pressa. Estou a desejando. Já a ouço gemendo canções de Dionísio. Já a desejo e foda-se o resto. Pergunto para onde ela está indo. Entrevista de emprego. Aonde? Numa empresa de consultoria midiática. Que horas você sai? As três da tarde. Posso pagar um café como pedido de desculpas quando sair? Já disse que está tudo bem, e tenho namorado. Eu não podia deixar escapar fácil assim. Oh, minha caceta! Não posso deixa-la escapar fácil assim. Vou ter que usar o método mais difícil. Começo a seguir. Cento e seis passos na minha frente. Vira á direita. O sinal está aberto. Ela está impaciente. Corre para a quadra ao lado. Prédio Rui Barbosa.


 Ela sai às três da tarde. Deve pegar o mesmo ônibus. Eu pego meu carro. Ofereço carona. Se não aceitar? Sigo o ônibus. E quando parar, vou ter que usar meu método inconsequente. Ela vai continuar sendo meu objeto da oração que tanto pedi a Deus, e eu serei ainda o sujeito oculto da situação. Meu mais novo frasco. Letícia. A ideia estava na minha cabeça há cinco horas. Finalmente um novo frasco. Le*****. Não posso resistir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário