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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Vodka - Volume 3 Final




Era como se fosse a última noite. Os dois se olharam com uma ternura indescritível. Estavam quase um ano juntos, depois de um encontro no Bar Esplendor. Clara era a menina dos sonhos de Gabriel. Gabriel, era o preenchimento do vazio de Clara, onde o amor ocupara espaço.

INT. QUARTO. CASA DE CLARA (2 Anos antes)

Clara: Gabriel, me diga que este sonho não vai acabar.
Gabriel: Como assim, acabar?
Clara: Tudo na vida termina, e algum dia nós...
Gabriel: Vai durar! Pare de falar besteiras. São 3 da manhã, vamos dormir agora, temos que...
Clara: Antes, deixa eu ler uma poesia que eu fiz pra você.
Gabriel: Poesia? Você voltou a escrever? Desde quando?
Clara: Desde...hoje à tarde. Bom, o nome dela é Vodka - Prelúdio.
Gabriel: Vodka? Ahahahahaha...você está de sacanagem comigo, não está? Pode falar...
Clara: Não, não estou. Poucas pessoas escrevem sobre bebidas e suas relações com o modo de interpretar subjetivo de cada um, em relação a vida. Não só a bebida, mas a música, a religião, os filmes...Se você faz delas algum refúgio, há uma parte de você viva nelas.
Gabriel: Bom, então que refúgio é esse que você está falando? Qual é o seu refúgio então?


Clara titubeou. O ato de titubear só ocorria em casos de desordem emocional dela.


Clara: É....é....é que...Seguinte, esqueça o que eu disse. Hoje é sábado, vamos beber um pouco. Comprei uma garrafa da nossa "água".
Gabriel: Agora? 3 da manhã? Tá louca?
Clara: Tá com medo de...Puta merda, que dor no peito...Enfim...tá com medo de perder igual daquela vez pra Carla?
Gabriel: Não! Vamos abrir a garrafa então...

5 minutos depois, Clara estava morta nos braços de Gabriel;
1 Ano depois, Gabriel fora internado em uma clínica de reabilitação.
Neste momento...


INT. ESCRITÓRIO. CASA DE CARLOS EDUARDO.

Gabriel: Eu sabia! Sabia que você sempre guardava uma Absolut nessa porra de frigobar.
C.E: Vai abaixar a arma agora?
Gabriel: Depois do primeiro gole..................................Tudo bem, vou guar...

Carlos não pensou duas vezes. Depois de seu amigo ter o ameaçado com uma Winchester, e ter ameaçado a sua família, passou-se uma ideia simples: Bater o mais rápido na cara de Gabriel. E assim fez. Gabriel, ao retirar a mira do seu alvo, levou um soco que lhe fez cair no chão. Carlos começou a bater repetidas vezes no rosto de Gabriel com a garrafa de vodka.

C.E: Você vai ameaçar minha família novamente por álcool, porra? - Soco no nariz
C.E: Se você está com sede, experimente seu sangue e veja se tem gosto de Vodka! - Soco na boca
C.E: Tá achando divertido? Tá curtindo o gosto de sangue se espalhando por seu...

Gabriel: Eu queria ter a Clara de volta pra mim!!!

Puta merda. Eu não estou batendo em algum maníaco. Eu estou batendo em um amigo doente.

Exatamente meu jovem!

O quê? Quem disse isso...

Sou o narrador. Às vezes me empolgo na história e acabo falando com vocês...Mas enfim...O rosto de Gabriel estava cheio de sangue. Nariz quebrado, cortes na boca e lágrimas em seus olhos, misturando a dor física, com a dor da perda.

Gabriel: Porra! Você quebrou meu nariz com uma garrafa!
C.E: Você me apontou uma arma por causa da porra dessa vodka! Eu surtei! Vem, segure em mim, vamos ao hospital.

35 MINUTOS E 16 SEGUNDOS DEPOIS...

Enfermeiro: Pronto. Acabei de dar o sétimo ponto. Seu nariz vai ficar bom daqui algumas semanas. Você se mete em muitas brigas? Eu só não consegui fazer nada pela sua orelha esquerda.
Gabriel: Não, eu apanhei mesmo, nem foi uma briga! Mas eu não tenho nada na orelha esquerda.
Enfermeiro: Então, uma plástica resolve, filho! Bom, está liberado...

C.E: Espere...preciso falar com você! O que há com você, velho?
Gabriel: Não sei..eu não sei direito...
C.E: Por quê essa história de vodka? Por quê só em ouvir a palavra, você enlouquece? Fazia tempo que você não ficava assim...
Gabriel: Clara me disse uma vez que as pessoas, quando possuem alguns problemas, elas se refugiam em algo. E, quando nos refugiamos, uma parte de nós vive nesse lugar, segundo ela. Acho que a fuga dela era a bebida. E desde sempre, depois de sua morte, eu achava que uma parte dela estava em cada gole de vodka.
C.E: Você me disse a caminho do hospital algo sobre o vazio que ela sentia. Que vazio?
Gabriel: Era algo que eu não entendia. Ela tinha esse negócio de vazio. Ela não falava muito dos seus problemas por ser muito orgulhosa. E eu achava que o que a supria era a vodka.


Silêncio absoluto...


C.E: Então você interpretou errado a única mulher que te amou!
Gabriel: Como assim? 
C.E: Ela tinha esse vazio. Não sei qual tipo, não a conheci, mas posso deduzir, não sou nenhum psicólogo, mas tenho experiência de vida. O preenchimento dela não era a porra de escritos sobre vodka. Não era religião, filmes, e, incrivelmente, muito menos a bebida.
Gabriel: Mas, ela escreveu aquilo e...
C.E: Foda-se o que ela escreveu. Ela não era poeta?
Gabriel: Sim...
C.E: Ela usava palavras para denunciar o seu sofrimento de vazio. O único refúgio, o único porto seguro que ela poderia ter..era...
Gabriel: Era o que cara?
C.E: Era você. O preenchimento do vazio dela, era você! Parte dela não está em goles de vodka. Ela está em você. Esteve com você o tempo inteiro e continuará, pois você era o refúgio.

Nunca Gabriel chorou tanto na vida. Nunca havia se sentido um merda total. Mas agora ele chora, e sente ser um merda. A dor do nariz quebrado era inválido se comparado com sua dor de compreensão errada de sua amada. De sua Clara. A única mulher que o amou.


C.E: Agora vamos! Vou te deixar em casa...


1 Hora depois...


C.E: Chegamos!
Gabriel: Eu não sei o que pensar sobre mim. Desculpe por tudo. Agradeço também, mesmo me fazendo beber do meu sangue.
C.E: Desculpe, eu...eu fiquei...
Gabriel: Eu te apontei uma arma. Você deveria ter feito isso. Eu faria o mesmo. Mas o lance da garrafa foi exagerado. 
C.E: Eu sei. Sinto muito. Mas a arma continuará comigo...
Gabriel: Vou tomar um banho. Descansar. Me preparar para a coletiva de amanhã sobre o filme...
C.E: Tudo bem. Levarei minha família na estreia.
Gabriel: Vou nessa...Boa noite.
C.E: Até...Se cuide cara. Eu vou precisar dormir muito pra entender o que aconteceu também. 
Gabriel: Ah, espere...uma última coisa! Tem algo de errado com minha orelha esquerda???


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Nota final: Como o homem é tão fraco perante suas dependências! Como o homem é escravo de seus sentimentos e das pessoas. A dependência de algo e do outro nos revelam pessoas presas aos organismos. Fugimos de nossos demônios indo em Igrejas. Fugimos da nossa realidade entre um ou outro filme...mas a escuridão ainda existe com o predomínio do vazio, no qual o mais sábio dos homens pode se bastar perante sua caminhada. Mas, se ele não souber dominar seus sentimentos, o vazio entrará no corpo, entre um ou dois copos de sangue, violência, maledicências, dependência, escravidão...


...e vodka!



FIM.




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